Bahia analisa laudos, reintegra Ramírèz e intensifica ações contra o racismo

Após análises de laudos periciais, feitos por profissionais estrangeiros contratados pelo Esporte Clube Bahia, a diretoria entendeu não haver provas de que o seu jogador Índio Ramírez tenha cometido o crime de injúria racial, contra o volante Gerson, do Flamengo, no jogo do último domingo (20) no Maracanã. Por isso, resolveu liberar o atleta para reintegração ao elenco.

O afastamento do atleta colombiano, aconteceu logo após o jogo, mediante a relevância da acusação do meio campista do time carioca. Porém, o Bahia correu para investigar o ocorrido. “Os laudos das perícias em língua estrangeira contratadas pelo Bahia não comprovam a injúria racial e o clube entende que, mesmo dando relevância à narrativa da vítima, não deve manter o afastamento do atleta Índio Ramírez ante a inexistência de provas e possíveis diferenças de comunicação entre interlocutores de idiomas diferentes“, diz um trecho de uma Carta Aberta à Sociedade, postada no site oficial e nas redes sociais do clube nesta quarta-feira (24).

Em entrevista ao jornalista Elton Serra da TV E, o presidente do tricolor baiano Guilherme Bellintani, afirmou que depois de algumas conversas com jogador Ramírez, isoladamente e na presença de outros atletas do clube, incluindo o capitão Gregore, o colombiano negou veementemente a acusação. Há também, a alegação de que, em campo, nem o árbitro, nem os demais jogadores das equipes ouviram o xingamento. Áudios e vídeos das emissoras que transmitiam a partida, não captaram nada nesse sentido. O que existe, é a palavra do jogador Gerson.

Bellintani assegurou que a sua tomada de decisão se deu a partir do que conseguiu extrair de tudo que foi analisado por ele, pelas pessoas envolvidas no jogo e pelo Núcleo de Ações Afirmativas do clube. Além das referidas avaliações, houve conversas com alguns especialistas, como a Promotora do Ministério Público da Bahia, Lívia M. Sant’Anna Vaz e outro casal de Promotores que atuam em São Paulo. Todos corroboraram para a ideia de que o jogador deveria continuar no elenco. Clique aqui e confira a íntegra da entrevista.

O tricolor baiano que desde 2017 desenvolve estratégias de engajamento em causas sociais e ações afirmativas no combate ao racismo, inclusive, tendo em boa parte dessa luta, o seu ex-treinador Róger Machado como a maior representatividade do comando do time, nesse processo, resolveu endurecer ainda mais sua política nessa questão.

Em outro tópico da Carta, o clube assume compromissos como por exemplo, inclusão de cláusula anti-racista, xenofóbica e homofóbica no contrato dos atletas. “Portanto, por entender seu papel de entidade de interesse público, o Bahia se compromete publicamente a adotar um conjunto imediato de medidas estruturais: a) Inclusão de cláusula anti-racista, xenofóbica e homofóbica no contrato dos atletas; b) Proposta de criação de protocolo antidiscriminatório para jogos de futebol no Brasil; c) Encaminhamento junto à mesa do Conselho Deliberativo do clube para incorporação de cotas raciais nas próximas eleições…”.

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Entenda o caso

O assunto de maior repercussão no futebol brasileiro na penúltima semana deste ano, foi a acusação do volante Gerson, do Flamengo, contra o atacante Índio Ramírèz, do Bahia, de tê-lo ofendido com frase de injúria racial no jogo entre as duas equipes na noite do último domingo.

O jogo de 7 gols, pela 26ª rodada do Brasileirão, deveria ter sido destaque pelo bom desempenho das equipes em campo, que culminou com duas viradas incríveis no placar. O Flamengo vencia por 2×0. O Bahia virou para 3×2 e aos 44min do 2º tempo, o time carioca decretou o placar final, vencendo por 4×3.

Porém, o lance mais comentado da partida foi a discursão dos dois atletas. Por sua importância e gravidade, o assunto foi parar na justiça e durante toda a semana, foi a pauta dos principais programas esportivos e jornalísticos de praticamente todos os veículos de comunicação do país.

Em determinado momento da partida, Gerson e o colombiano Ramirez parecem falar algo um para o outro. A partir desse momento, inicia-se a confusão. O flamenguista emocionalmente indignado discute com o treinador tricolor Mano Menezes (após o jogo, foi demitido) alegando que o camisa 15 do tricolor falou: “cala a boca negro”. Confira o vídeo abaixo.

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Gerson no Instagram

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Foto: Instagram

Depois do jogo, a camisa 8 do ‘Mengão’ usou sua conta no Instagram para desabafar sobre o “cala a boca negro” que segundo ele, foi a maneira como Ramírez se referiu em campo.

Amo minha raça e luto pela cor… O “cala boca, negro” é justamente o que não vai mais acontecer. Seguiremos lutando por igualdade e respeito no futebol – o que faltou hoje do lado contrário. Desde os meus 8 anos, quando iniciei minha trajetória no futebol, ouço, as vezes só por olhares, o “cala a boca, negro”. E eles não conseguiram. Não será agora. “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Não adianta ter o discurso, fazer campanha, e não colocar em prática em todos os aspectos da vida, inclusive dentro de campo. O futebol não é algo fora da sociedade e um ambiente onde barbaridades como o “cala a boca, negro” podem ser aceitas. É uma pena nós, negros, termos que falar sobre isso semanalmente e nenhuma atitude no esporte ser tomada a respeito. E é mais triste ainda ver a conivência de outras pessoas que estão dentro de campo e que minimizaram e diminuíram o peso do ato de hoje no Maracanã. É nojento conviver com o racismo e ainda mais com os que minimizam esse crime. Não vou “calar a minha boca”. A minha luta, a luta dos negros, não vai parar. E repito: é chato sempre termos que falar sobre racismo e nada ser feito pelas autoridades. Racismo é crime. E deve ser tratado desta maneira em todos os ambientes, inclusive no futebol. Não me calaram na vida, não me calaram em campo e jamais vão diminuir a nossa cor“.

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A Carta do Bahia e a palavra do Ramirez

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Por sua vez, o meia-atacante do time baiano, falou em espanhol ao canal TV Bahêa a sua versão sobre o assunto. Confira…

*Crédito das Imagens: Reprodução/JCSantana

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